Como demonstram milhares de exemplos ao longo dos séculos, a discussão sobre o talento sempre fez parte do cotidiano, mas só recentemente é que a palavra se tornou onipresente. Nunca foi tão utilizado e para nomear situações tão diferentes, mas relacionadas. A questão do talento foi ampliada e renovada: hoje está no centro da literatura sobre gestão empresarial (ou gestão de talentos), dos programas das escolas de negócios, ou de tudo que o mercado rotula como “discurso de gestão”. Agências que representam celebridades ou influenciadores os chamam de talentos. Um concurso onde uma pessoa anônima vai fazer algo em que se considera bom é um show de talentos.
Embora muitos aspectos do processo criativo permaneçam um mistério, o psicólogo Howard Gardner tentou entendê-lo. Criador da Teoria das Inteligências Múltiplas, não é por acaso que em seu livro Inteligência Reformulada ele trata no mesmo capítulo da “inteligência [no singular] de criadores e líderes”. Gardner argumenta que, embora tanto a inteligência como a criatividade envolvam “a resolução de problemas e a criação de produtos”, a criatividade “inclui a capacidade adicional de fazer novas perguntas”. Claro, sempre dentro de uma disciplina específica porque “não se é criativo em tudo”. Quanto à relação entre criadores e líderes, sustenta que são “surpreendentemente semelhantes” porque “ambos procuram influenciar os pensamentos e comportamentos de outras pessoas e recorrem à persuasão. A diferença está no imediatismo dessa influência.”
Um dos principais paradoxos sobre o talento no mundo dos negócios é que o talento tem a ver com a transgressão, com “a guerra contra o cliché”, e as empresas, pelo menos em grande parte, são organizações fortemente hierárquicas, com seu resultado final organizado por processos, seguindo modelos que deixam pouco espaço para a improvisação.
Terreno que muitas vezes se torna fértil a situações de duplo vínculo, ordens contraditórias, que geram ambiguidade e estresse, mas também trazem disciplina. Você tem flexibilidade, mas trabalha o tempo todo; existe diversidade, mas você deve parecer perfeito; você pode ir para casa, mas deveria ficar; você deve quebrar as regras, mas também deve obedecer. É algo ambíguo, elusivo; no entanto, alguns dos que ocupam posições de liderança dizem que é um atributo de valor. E, aliás, em muitos casos se referem a si mesmos.
O mundo empresarial contemporâneo enfrenta um cenário cheio de incertezas: é preciso ter sucesso num contexto confuso e imprevisível, marcado pela saturação de informações e pelo desenvolvimento tecnológico extremamente rápido. Não só as empresas, mas os setores aparecem e desaparecem a grande velocidade, independentemente do investimento, da qualificação dos colaboradores, e do modelo de gestão.
Desenvolver talentos no mundo corporativo pode significar muitas coisas positivas, como saber quais processos cognitivos devem ser colocados em operação para poder executar tarefas de forma eficaz ou quais atividades são mais adequados para cada perfil pessoal. Mas, o termo Talento, também se tornou uma peça fundamental para a justificativa de muitas práticas contraproducentes tanto para as empresas como para a sociedade.
Este texto traz recortes do artigo publicado pelo jornalista Enrique Rey – jornal El País



